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Bicho-da-seda

Bicho da seda

- Ó vil… O que te deu agora para, volta e meia, chamares casulo à tua casa?

- Qual é o problema? Causa-te transtorno?

- És algum bicho-da-seda?

- Não.

- Vês?!

- Mas sou um bicho sedoso.

12.8km

Por esta altura os leitores do Mau Feitio, habituados que estão a ler peripécias e percalços do meu dia-a-dia (cujas ocorrências a U. faz questão de avolumar, por essas caixas de comentários fora), poderá dar-se o caso de pensarem que sou uma criatura completamente desequilibrada. O que não deixa de ser verdade, em certos momentos. Mas gosto de acreditar que possuo uma explicação bastante mais racional, capaz de me tranquilizar quanto à minha transcendente e invulgar personalidade. Apraz-me dizer, para justificar e banalizar todos os meus equívocos e actos falhados, que sou um bicho extremamente focado e, mais ainda, que os meus neurónios apenas processam pensamentos decorrentes de actividades, interacções ou raciocínios que me são caros. Não necessariamente relevantes, evidentemente, mas isso constitui tópico para uma outra discussão. Posto isto, sempre que o corpo se dedica a tarefas entediantes e incapazes de produzir interesse sobre a minha cabecinha, esta viaja para assuntos diversos, divaga e deixa de estar consciente do corpo e da sua deambulação pelo meio.

Fundamentada que está a minha descoordenação motora e mental, não posso perder a oportunidade de falar sobre um episódio adicional da minha humilde existência. 3.2km, é a distância que me separa do local onde diariamente ofereço a mente (esta que resplandece com intensidade e fulgor) ao manifesto. 4, as vezes que percorri esse percurso num destes dias. 4 ºC, a temperatura média que se me entranhava nos poros. “E porquê, 12.8km 9.6km dos quais numa noite gélida e húmida como aquela?”, perguntam vocês, “Empanturraste-te em chocolate e querias exercitar essas perninhas de rã?”. Obviamente a resposta é não. Mais um lapso ao arrumar a tralha na mochila paquiderme (Paquiderme é a palavra certa. Se não me dobrasse ligeiramente tenho a certeza que tombava para trás, tal é o peso.) e voltei para casa sem o transformador do portátil. Deixá-lo no gabinete, sozinho e abandonado à sua triste sorte até à manhã seguinte não podia ser opção.

Foi uma viagem esclarecedora. Segui pela cidade, só eu e a minha bicicleta… Deixei para trás as luzes e o tráfego, atravessei o bosque protegida pela escuridão. O exercício físico não permitiu que o corpo arrefecesse, embora as zonas com pele a descoberto fossem continuamente fustigadas pelas hordas de vento. Os músculos da face anestesiaram com o frio. Felizmente lembrei-me das luvas, caso contrário teria deixado de sentir mãos. É revigorante e libertador sentir a energia canalizada para outros órgãos que não o cérebro. E nisto nasceu-me também uma vontade imensa de experimentar a piscina de água quente. Disseram-me que à noite parece um mar de gente (até aprecio o mar, a gente é que não), mas aos fins-de-semana de manhã deve ser tranquila. Um corpo extenuado far-me-ia as delícias por estes dias e eu sou detentora de um fraquinho assim muito sério por água.

A venda

Sabia de antemão que os belgas sofrem dessa doença raríssima que não lhes permite ter portadas ou persianas nas janelas. Sendo eu apreciadora do repouso imerso em total escuridão, vi-me forçada a adquirir uma venda para cobrir os meus cativantes olhos durante o sono. Mais tarde iniciaram obras no edifício do lado e os indivíduos teimam em começar a trabalhar bem antes do nascer do sol. Lembro-me que no início, e apesar de acordar sobressaltada, decidia-me sempre pelo benefício da dúvida: “lá estão os jovens, bêbados mas felizes, a rufar uns tambores ou jambés”.  Depois a situação foi-se repetindo dia após dia. Batidas ensurdecedoras em metal, martelos pneumáticos às 6:20 da manhã… E a betoneira. A betoneira, minhas avestruzes pernaltas! Aquele rolar monocórdico que se me vai picando os nervos e me transforma num ser com pensamentos violentos, capaz de lhes atirar com uma bigorna do alto do meu terceiro andar. Nenhuma miúda, nem mesmo uma vil miúda como eu, é de ferro. Decidi, portanto, tomar uma atitude severa e … comprar também uns robustos e maleáveis tampões para os ouvidos. Eu! Eu, que sempre dormi que nem uma pedra, agora tenho que me equipar toda para conseguir descansar! Meias fofas para não se me enregelarem as extremidades, que eu sou menina para gostar de sentir os ossos no sítio quando me levanto. Venda nos olhos e tampões nos ouvidos. Que bonito. O que me vale é que combinam com a capa do edredão, caso contrário nem sei o que seria da minha triste figura.

Embora considere extremamente improvável que outra criatura para além de mim venha por obra do acaso dormir na minha cama, não deixo de imaginar situações inóspitas e até discussões sobre a utilidade dos acessórios sempre que eu permanecer impávida e serena (leia-se completamente surda) perante as tentativas de sedução mediante sussurros ao ouvido. Claro que pretender que alguém no seu perfeito juízo queira seduzir um bicho que dorme com uma venda sobre os olhos e dois apêndices espetados nos orifícios auditivos é, por si só, um exercício mental ridículo e autêntico desafio às leis da probabilidade.

Mas não nos dispersemos, porque não era bem isto que queria contar. Certa noite, tinha eu remetido o meu corpinho à posição horizontal quando me lembrei que não tinha ligado o despertador. Empreendi uma arriscada viagem até à mesa para buscar o bendito telemóvel. Arriscada? Em primeiro lugar porque o sono me debilitava todos os sentidos, incluindo o do equilíbrio. E em segundo e muitíssimo importante, pela decisão absolutamente brilhante de manter colocada a venda nos olhos. Não me perguntem. Sempre fui assim, gosto de desafios e pensei que pudesse ser divertido realizar todo o caminho sem ter a noção dos obstáculos. E lá fui, à deriva pelo meu casulo. Consegui atingir a mesa. Não foi difícil, apenas percorri dois metros de distância. Entretanto regressei com sucesso. Congratulava-me pelo fantástico sentido de orientação, que o meu ego também agradece umas festinhas esporádicas. Foi então que experimentei o movimento para me sentar no meu ninho. O meu rabo rasou o vazio e instalou as suas almofadas no solo com um estrondo descomunal. Claro que os braços não quiseram deixar de participar neste momento memorável e embateram com violência na tábua lateral do leito. Balanço final: nódoas negras no braço, uma ferida no cotovelo. Os glúteos estão bem e recomendam-se, comprovando-se uma vez mais a sua perfeita adaptação à função de airbag.

Impossible

Este solo… Hmm hmm. Deixa-me enroscar no meu cantinho. Boa noite.

[Solo de Nels Cline em Impossible Germany (álbum Sky Blue Sky), Wilco]

Thai prof

Ontem bateu-me à porta um vizinho. Um sujeito belga que é professor de Inglês na Tailândia. Tinha cabelo loiro desgrenhado à conta desse substituto natural para o gel que é o sebo corporal misturado com partículas de sujidade várias. Disse que 1000€ na Bélgica não é muito, mas na Tailândia ainda dá para umas actividades. Que tem lá a namorada. Nem sabia se lhe havia de chamar fiancee, se girlfriend. Não percebi muito bem a desculpa que me contou para a perda da carteira. Nestes casos também não interessa… Decidi confiar e o certo é que lhe emprestei 5€. Prometeu devolver-mos hoje. Os meus amigos já gozam comigo, dizem que da próxima vez passam lá por casa em vez de se dirigirem a um Multibanco. Mas eu cá estou esperançada! :D E vocês?

Tudo és tu

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia 1975

Tremor de te ter através de um biombo
Perigo de te querer nesse altar de ilusão
Onde tudo é adivinhar-te, sonhar-te
Onde tudo é desejar-te, sorver-te

Ardor de te ver chegar um dia
Agastado desse soluçar de hesitação
E tudo será mimar-te, viver-te
Tudo será provocar-te, silenciar-te

Tudo será explorar-te
Tudo serás tu

STUK

STUK

STUK @ Leuven

Ontem regressei ao jazz no STUK, o centro de artes e espectáculos de Leuven. Que saudades! É uma sala enorme, mas mantém sempre uma atmosfera envolvente, intimista e acolhedora. As noites de Domingo são pontuadas por performances de jazz ao vivo. Grátis.

Para todos (todos, que é para parecerem muitos; mas na realidade todos – todos de novo! ai. – sabemos que o número de pessoas que ainda me aturam é reduzidíssimo) os que continuam relutantes em marcar as passagens de avião para me virem visitar, aqui fica mais um motivo. Mais não sei. Posso tentar realizar um pino. Também posso suplicar. Parece que ultimamente me tenho tornado experiente nessa arte. Só me falta treinar a pose de joelho no chão, rebolar e assentir com a cabeça à ordem do dono.

O que me dizem?

E STUK não é apenas sinónimo de jazz… Embora para concertos existam outros locais de eleição aqui em Leuven, o cartaz do STUK não deixa de ser interessante. Aqui fica:

Briskey
i.h.k.v. UUR KULtUUR
wed 18 nov 09 . 21:00

Tortoise (USA) + iCu
fri 20 nov 09 . 20:30

Laura Gibson
fri 27 nov 09 . 22:30

Slaapwel Records Labelnights
Wouter van Veldhoven, Peter Broderick + steinbrüchel
thu 10 & fri 11 dec 09 . 22:30

Apse + Motek
tue 15 dec 09 . 20:30

António Sérgio

António Sérgiowolfmoon

O que vou eu dizer? Nada. Posso lá competir com este senhor.

WWII

Movíamo-nos com cautela, pisando desajeitados os paralelos escorregadios. Aqui e ali padrões em vermelho, ocre e amarelo. São as folhas outonais que também emprestam o seu carácter à cidade. Apertávamos os corpos uns contra os outros na tentativa de enganar o frio e fintar as espessas gotas que caíam furiosamente. Algumas, mais ariscas ou clarividentes, encontram sempre o caminho certo para beijar a pele por entre uma gola ou um cachecol mal aconchegado. Não faz mal, depressa esmorecem no conforto do pescoço. Entrámos no bar mais próximo para aquecermos as entranhas.

Uma menina belga vestida de negro integral preparava a sua investida. A avaliar pelos olhares de soslaio diria que de uma viúva negra se tratava, não fosse o apêndice (vulgo namorado, acompanhante ou isso) a ela acoplado. “De onde são?”. Visto ser a única mulher do grupo, tomei a iniciativa: “Dois portugueses e três alemães.”. Pois o aracnídeo incorporou a informação, esboçou um esgar de desagrado (só faltou esticar as patinhas peludas em sinal de ameaça) e regressou ao bar. Eu nem sabia que os artrópodes bebiam álcool… Observássemos o interior da cabecinha desta criatura e veríamos um cérebro imerso nessa substância que inebria os sentidos.

Avançou novamente para nós, deu as boas-vindas e desejou-nos uma agradável estadia. Parecia agora um pequeno animal ferido. Retirou três moedas de cêntimo e estendeu-as a cada um dos alemães: “Não gosto de alemães, nunca falo com eles. Sei que vocês não têm culpa e queria ultrapassar isto. Gostava de vos oferecer estes cêntimos como moedas da sorte… A que muitos dos nossos antepassados não tiveram. Posso contar a história da minha avó?”.

Nesta Europa tão longínqua do nosso cantinho são revividas diariamente as dores da guerra. Há quatro anos atrás visitava a biblioteca, um dos símbolos desta cidade. A guia explicava ter sido queimada em 1914 pelos alemães, reerguida em 1928 com a ajuda dos Estados Unidos e novamente destruída pelos germânicos em 1940. Na altura os visitantes alemães baixaram as cabeças, mergulharam os olhos no chão e pediram desculpa. A dor não permanece apenas nas memórias das famílias e das nações. Está gravada na pedra das habitações reconstruídas, que têm inscrito o ano da destruição.

Nós, espécimes humanos, vivemos do preconceito. Acumulamos umas ideiazinhas sobre aquilo que gostaríamos de ser e o que queríamos que os outros fossem. Depois conhecemos pessoas e coleccionamos alguns rótulos para personalidades e comportamentos. Sabemos exactamente quais foram as atitudes que nos magoaram e fazemos questão de lhes atribuir os papelinhos mais coloridos, para nunca mais nos escaparem. Um dia somos confrontados com um desses execráveis pedaços de cor e, em pânico, libertamos a nossa raiva na proporção do que vive cá dentro. E só então nos apercebemos que afinal os seres não saíram do mesmo molde. Tarde demais.

(Vídeo: Invasão e ocupação germânicas da Ucrânia durante a II Guerra Mundial. Interpretação de Kseniya Simonova, artista ucraniana.)

Nem sei

No outro dia estava terrivelmente atrasada para ir resgatar a minha roupinha da máquina de lavar… Decidi passar a abrir na minha rua, montada na minha bicicleta. O único problema é que a minha rua é pedonal e só me é permitido circular com o veículo a pedais após as 19h. E eu, com esta minha esperteza que a hereditariedade me atribuiu, decidi perpetrar esse vil acto em plena tarde de Sábado, enquanto todos os habitantes de Leuven levavam a bom termo o seu passeio de compras.

Resta dizer que a minha rua é tipo a Baixa cá do sítio. Lojinhas porta sim porta sim, pessoas a deambular… Iniciei uma verdadeira gincana por entre os jovens e as pessoas idosas. Já pressentia os remorsos caso acontecesse matar uma velhinha. Se fosse um jovem não havia problemas, os jovens enfadam-me. Agora uma velhinha… Uma velhinha tem sempre histórias interessantes para contar! Quase me estatelei. Mas tudo sem perder a compostura, atenção, que eu tenho uma forma extraordinariamente sensual de manifestar a minha descoordenação motora. Eu sei, ainda não repararam, mas um dia conseguirão aperceber-se dessa verdade inquestionável.

Prosseguia eu nestes meus pensamentos avessos à integridade física das velhinhas belgas, quando decidi levantar a cabeça para planear com maior antecedência o meu percurso. E foi então que vislumbrei duas fardas azul cobalto. Em pânico, ponderei as minhas possibilidades: “Desces da bicicleta agora e vão perceber que estás comprometida, que tens a noção do erro.”; “Não desces da bicicleta e podes sempre alegar que não viste qualquer sinal, não és de cá ou chegaste há pouco tempo…”. Claro está que nestas alturas o melhor é fingir que se é estúpida. Enverguei a carinha de inocente terrivelmente assombrada e receosa e continuei o meu caminho.

“Mevrouw, mevrouw… Alstublieft.”, começou um deles. Foi o suficiente para eu tiritar. Mas imbuída do espírito guerreiro, lá mantive a serenidade. “Stop. You cannot ride your bicycle here.” Expressão de espanto, pedido de desculpa encarecido… E assim me livrei de uma multa. :-) Experiência a não repetir!

A U. está de férias no Hawaii. Como se isso não fosse suficiente para me causar uma certa e determinada inveja, nomeadamente pelo facto de a diferença de temperatura entre as nossas localizações ser de 13ºC, por vezes vem aqui levantar suspeições sobre a minha recta e cordata pessoa. Pois bem, para teu regozijo, esta foi a mentira que eu contei à polícia local… Mas fazendo minhas as palavras que Winston Churchill certa vez proferiu no Parlamento perante um seu adversário, chamar a isto mentira não é mais do que uma “inexactidão terminológica”.

[ Sei que não se aperceberam, mas existiu um hiato entre a escrita do parágrafo imediatamente acima e estas linhas. Tudo porque as minhas narinas foram subitamente invadidas por um forte odor a queimado... Quis o destino que viesse do meu humilde fogão, do interior do meu pequeno tacho. Pretendia cozer uns alimentos e esqueci-me de colocar a água, de modo que neste momento o meu casulo fede a torresmo quando já está naquele ponto em que se assemelha à hulha. Para além exercitar todos os músculos dos braços e antebraços na operação de limpeza, ainda me vi forçada a abrir a janela (e se está frio!) e ligar o exaustor. Agora miro com insistência o sensor de incêndios no tecto, quase a implorar que não me envergonhe. ]

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