A minha relação com as sardinhas é algo tempestuosa. Por um lado, as espinhas finas e pontiagudas que se espetam na bochecha ou nas gengivas e, por vezes, consomem todo o percurso do tubo digestivo às arranhadelas sem dó nem piedade. Por outro, a gordura de travo sublime a correr viciosamente pelas escamas, apurando-se nas pedras de sal grosso atiradas à mão-cheia (Sal é bom e eu gosto. Apupemos, todos, a existência de pão e manteiga sem sal!
).
Nos Santos Populares, ódio e amor aproveitaram a faustosa noite quente de Verão para declarar tréguas, oferecendo-me um motivo extra para atacar algumas sardinhas com confiança. Desloquei-me com um grupo de cerca de 30 jovens bem apessoados, com predominância de bichos engenheiros e biólogos – ciências, portanto, que o pessoal nem quando é para se divertir gosta de variar o seu habitat -, até ao bairro de Alfama para jantar.
Gentes muitas, de todas as cores e feitios! Manjericos à esquerda, águas à direita. Bolos de bacalhau, rabanadas (alguém pensou que era Natal!), arroz-doce, chupetas de caramelo (devia ter comprado, agora sinto desejos e apetece-me chuchar no dedo…
). Alguns indivíduos encostados a muros, outros debuçados nas escadas das igrejas… Muitos a cortejar paredes com jactos de urina. E ainda a noite era bebé de colo. Finalmente, chegámos ao largo de São Miguel. Enfeites coloridos, faces rosadas de sangria e cerveja, brasas a crepitar debaixo das febras, com as labaredas a anunciar sardinhas. O arraial estava já ao rubro e nós ainda nem tínhamos recheado o estômago.
O repasto foi agradável. Chouriça assada, pão bom… As minhas primeiras sardinhas do ano, fresquinhas e salgadas como manda a lei.
E sangria, claro. Não podia faltar. No final, uma conta pindérica de 6 € a cada contribuinte. Os engenheiros, gente profícua a realizar contas de adir, gritaram: “Não é possível!”. Carregaram a honestidade que traziam ao lombo e foram explicar ao senhor que somava as parcelas no telemóvel, que algo de estranho se passava com a conta. Como bónus pela atenção demonstrada, o senhor cobrou-nos então 12.5 € por cabeça. E nem sequer nos ofereceu um arroz-doce!!
A subida até ao Castelo relembrou-me porque não aprecio multidões. Pisadelas, vidros no chão, 99.9% de pessoas de estatura superior à minha com cigarros acesos e cotovelos possuídos mesmo à altura da minha cara… Até poderia jurar que, por escassos milissegundos, os meus pés se elevaram do chão e fui transportada pelos foliantes tempestuosos. Música para todos os gostos, desde o típico arraial de acordeão a grupos de metais, passando por palcos de música electrónica que a minha ignorância me impede de classificar. E viva a diversidade!
Vi também três raparigas em movimentos sinuosos, enroscadas num sinal de trânsito. Pareceu-me extremamente bem-visto, já que o dito precisava de uma limpeza. Apraz-me ainda salientar que, perante a existência de sinais para todas, as senhoras podiam ter-se distribuído para elevar a produtividade.
Sou alegre possuidora de registos admiráveis da nossa noite de folia. Mas o que vos vou mostrar agora supera, em qualquer parâmetro, os referidos momentos lúdicos. Atentem nesta ementa:
Em Português, saliento a “ginga”. A “ginga” é uma bebida alcoólica produzida através da maceração de ginjas por movimentos subtis da anca, vulgo gingar. Não conheciam? Pensavam que era ginja? Remetam a vossa ignorância ao exílio, por favor. “Ginga” nem soa mal de todo, até porque a ginja (ginjinha, para os amigos) bebida em quantidade é bem passível de fazer gingar…
Na tradução para Inglês apreciei imenso o vinho que deu em “vine” e a febra que virou “febrile” (seria porco com febre?), para não mencionar a sangria transformada em “bleeding” (por acaso não viram algum estrangeiro em fuga, com a camisa ensanguentada, para comprovar uma tese que eu entretanto magiquei?). Com certeza deve ter sido obra do puto obeso que emborcava as colas que iam por engano para as mesas. Já arranha no Inglês, mas ainda não aprendeu a dizer sangria. Compreendo-o, ainda não tem idade para beber, coitado. Com o problema da ginga atravessado, o miúdo já só conseguiu traduzir a “baked potato” e optou por se dedicar a uma travessinha de “sweet rice”.
A versão francesa levou-me ao delírio com o “chourizou”. Já agora, amigos lisboetas que me lêem… O que nos serviram era chouriça (“andouillette”), não chouriço (“andouille”)*… Estas gentes da metrópole são mesmo ignorantes. E o que dirão os vis leitores do “riz au lait” trocado por “riz dou” e o “jus” escrito à moda da casa como “j’ou”? Para além de dominador de colas, o puto demonstrou profissionalismo a deglutir letras e a gerar neologismos com criatividade. Por mim está aprovadíssimo para jogador de futebol!
Protesto da noite: ninguém me ofereceu um manjerico!!
* O chouriço é, normalmente, bastante mais largo e comprido do que a chouriça. Distinguem-se facilmente.







Fiquei rendido ao bleeding… Para mim era uma bleeding com o sangue daquela menina que vai ali a passar!!!
Ps: estou numa de vampiro hoje, sorry!
Não te aproximes.
Esqueceste-te do hino! Foi nessa altura que eu pensei:”é assim que morrem pessoas esmagadas”
Penso que essa terá sido a altura em que fui transportada pela multidão.
Por momentos, confesso que também temi pela minha vida…
e desejaste ser uma lesma viscosa que passasse em qualquer sítio?
Também gosto muito de sardinhas. Nesse “Santos” as coisas são bem baratas, hein…!?