Era noite de Sexta-feira e corria para não me atrasar… Passei levemente o lápis preto e o perfume. Tinha os bilhetes. Em breve, a D. estaria à minha espera na Gulbenkian. Recebi a mensagem. Imediatamente suspeitei que fosse a D. a comunicar alterações ao previsto. Peguei no telemóvel com a leviandade de quem esperava ler algo sem interesse e o enfado de quem não tinha tempo a perder. Parecia não querer identificar o número. À visita dos olhos sobre as letras, os dedos tremularam. Mais e mais. Compreendia o que estava escrito. No entanto, recusava-me a acreditar.
Que catadupa emaranhada de emoções. O impacto daquela lança desfez-me o cérebro em mil pedaços. Não chorava, limitava-me a receber o choque em vagas dolorosas e trespassantes. Passeei pela casa sem rumo. Enchi-me de raiva. Espremi-me e era nada. Não me encontrava. A angústia era tremor. A consciência de que não tinha estado lá, uma bigorna sobre o peito. A injustiça da situação, o catalisador daquele caos.
Sei que estive presente no anfiteatro e assisti ao concerto. Anestesiada. Lembro-me de, continuamente, magicar resoluções para os dias que se seguiriam. Queria ser um forte imponente e impenetrável, amadurecer substancialmente em escassas horas para poder emitir conselhos sábios e palavras de conforto. Espremia-me e era nada. Reduzia-se ao ridículo a minha pequenez. Agigantava-se a sensação de impotência.
Recebi a notícia através do miúdo que começou por me aturar as paranóias na Universidade e depressa se revelou um amigo excepcional. Tinha sempre a clarividência necessária para me chamar à razão. Dizia ele que era tudo uma questão de interesse, pois a preservação da minha sanidade mental era requisito essencial para um bom rendimento nos trabalhos de grupo para os quais formávamos invariavelmente dupla. Na tentativa de disciplinar o meu mau feitio, que frequentemente me fazia chamar-lhe “parvo” e “estúpido”, ameaçou gritar “Ó boa!!” sempre que eu recorresse a uma dessas expressões. Durante muito tempo andei na linha, pois sabia-o bem capaz de tal proeza. Certo dia, porém, descuidei-me e saiu naturalmente. Foi vê-lo subir a umas escadas do pavilhão e gritar, lá do alto, o que tinha prometido. E eu encolhida, com cor de pimentão, suportava os olhares dos transeuntes.
Partilhámos 6 meses de Erasmus. Lembro-me de voltar para Portugal transformada em baleiazinha, porque sua excelência insistia em reabastecer repetidamente o meu prato às refeições. Recordo-me da situação caricata, por alturas natalícias, em que sua excelência pretendia comprar chocolates para a família. Aproximava-se a hora de fecho dos estabelecimentos comerciais e seguíamos de bicicleta. Sem aviso, a corrente da sua bicicleta partiu. No momento seguinte, eu e um espanhol perseguíamo-lo de bicicleta, enquanto ele corria pelas ruas da cidade, tentando chegar à loja de chocolates. Incontáveis peripécias teria para contar!
Mais do que a amizade e todos os momentos que fomos partilhando, sempre admirei a família deste meu amigo pela dedicação, união e postura com que se posicionou na vida. A força que demonstra perante as adversidades ficou-me mais uma vez marcada este fim-de-semana, não obstante o duro golpe que sofreu. Sou fã incondicional deste grupo de pessoas e, hoje, passado o choque que me toldou nos últimos dias, sentia-me capaz de mover montanhas em busca da sua felicidade.
Para já, dedico-lhes este post.




E, apesar de tudo, porque é tão doloroso e difícil acreditar numa coisa que é tão natural e que sabemos ser inevitável?
Em alturas complicadas como essa, ter uma amiga assim, faz toda a diferença.
Garanto.
óptima escolha musical…
…escreves muito bem