Este post surge em resposta ao desafio colocado ali no Troblogdita. Nele, o Nuno critica o conceito generalizado de agnosticismo: a afirmação da impossibilidade de provar a existência de entidade(s) transcendente(s). Numa tentativa de espicaçar os agnósticos, vai mais longe e sugere que a posição demonstra falta de interesse e despreocupação sobre o tema das religiões, das crenças e da fé. Como aprecio desafios, aqui vai a minha opinião.
Antes de mais penso que a falta de interesse, a existir, é perfeitamente legítima. Existem pessoas que se interessam por música, outras não. Pessoas que se interessam por desporto, outras não. Porque não hão-de existir pessoas que não se interessam pelas questões religiosas? Penso que é bastante redutora a ideia de que quem não se interessa pelo tema é incapaz de pensar.
Quanto ao agnosticismo vou apenas falar do meu, que é, necessariamente, distinto de qualquer outro. Não pensei muito sobre o rótulo que me deveria atribuir. Como seria demasiado presunçoso inventar um apenas para mim, consultei os existentes e certo dia optei por agnóstica ateísta.
Agora que me desacreditei completamente, podemos prosseguir com a minha sucinta tese.
Penso que o problema essencial não será exactamente o de conseguir provar ou não a existência de deus(es) e logo aqui me desmarco um pouco da definição vulgarmente aceite do conceito de agnosticismo. Parece-me mais do que óbvio que, por mais anos de investigações e pesquisas, nunca se conseguirá desenbocar numa conclusão pacífica e unânime. Mas esse esforço é irrelevante, na medida em que as pessoas não acreditam ou deixam de acreditar por terem provas, caso contrário e perante a falta de prova contundente seriam automaticamente agnósticas.
O cerne da questão consiste, para mim, em explicar a necessidade ou vontade que tantos seres humanos demonstram em acreditar que existe(m) entidade(s) suprema(s) com capacidade para determinar ou influenciar o seu percurso. Na minha opinião os deus(es) existem, de facto, mas não por si sós. Apenas enquanto criação de cada um que escolhe enveredar pela via da crença, como ponto de apoio e de resignação, sobretudo nos momentos difíceis. É o facto de as pessoas acreditarem que lhes dá “vida”.
O meu agnosticismo é ateísta precisamente porque não compreendo essa necessidade de acreditar em entidades transcendentais. Relembrando acontecimentos recentes, para mim é absolutamente inconcebível justificar a morte de um ente querido como um desígnio de uma entidade suprema ou obra do destino, por exemplo. À partida, surge-me como revelação de fraqueza a incapacidade de admitir que diversos factores e acontecimentos culminaram no desaparecimento de um ser, cuja morte não serve obrigatoriamente um determinado propósito. Menos ainda consigo compreender o sentimento de injustiça de muitos religiosos perante tais desígnios. Não deveriam eles aceitar, sem questionar, a vontade do(s) deus(es)? Existem muitas outras situações na religião que não compreendo e me incomodam, mas não me quero alongar.
Por outro lado, condeno as atitudes dos religiosos e dos ateus que criticam os demais (sejam eles ateus, religiosos ou agnósticos) assemelham-se à dos heterossexuais homofóbicos, que condenam o comportamento homossexual apenas porque é diferente do seu e porque para eles é incompreensível e inaceitável, à luz daquilo que é o seu modelo de vida e a sua própria crença. Ambos são seres intolerantes por se acharem possuídores de uma verdade absoluta e recusarem aceitar opiniões diferentes das suas. Também eu, como não crente, assumo muitas vezes essa intolerância de forma inconsciente.
Resumindo: Acho ridícula a crença porque não a compreendo. Mas não acho menos ridículo o ateísmo, por procurar negar aquilo que não conhece, nunca experienciou e nunca conseguirá compreender. De ambas as premissas e após os parágrafos anteriores, podemos necessariamente concluir que também eu sou ridícula.
Muitos classificam erradamente o agnosticismo como uma espécie de meio-termo entre teísmo e ateísmo. Daí a sugestão, também ela falaciosa, de que os agnósticos não se interessam pelo tema ou não pretendem ferir susceptibilidades e, por isso, optam por uma posição intermédia que não é carne nem peixe. Como facilmente se depreende, ambos religiosos e ateus são crentes. Uns porque crêem na existência de deus(es), outros porque têm fé na sua inexistência. Um agnóstico assume a crença/fé como um fenómeno exterior à razão, pelo que põe em causa a capacidade de discernir racionalmente sobre o assunto.
O (meu) agnosticismo não é ausência de ideias próprias. É, pelo contrário, um esforço de compreensão permanente do fenómeno da crença e um sinal de tolerância e abertura a convicções diferentes, um apelo à diversidade que torna o mundo mais interessante. Os religiosos morreriam de tédio se não pudessem chamar hereges aos não crentes e os ateus seriam tremendamente infelizes se não pudessem acicatar críticas contra as religiões. Nos meus círculos de amigos convivo regularmente com crentes, cépticos e ateus e devo dizer que entre alguns dos mais próximos se encontram pessoas para quem a religião é assumida como pilar fundamental.
Penso que a questão fundamental não é aquilo em que acreditamos, mas a forma como isso se traduz nas nossas decisões ao longo da vida. Porque um religioso que não seja fanático e acéfalo, não é submisso e também tem a capacidade de questionar a doutrina e os dogmas da sua religião. Pessoalmente, como não crente, adoraria poder compreender e explicar a necessidade de fé sentida por tantos e tantos seres.
Como aparte, e porque sei que vocês gostam é destas coisas, uma pequena história:
Apesar de ter nascido numa família católica, nunca compreendi os desígnios da fé, a crença no destino ou em superstições. O meu contacto mais permanente com a religião resumiu-se à frequência das aulas de “Educação Moral e Religiosa Católica” do ensino público leccionadas por uma freira e, mais tarde, por um padre e ainda uma senhora de princípios puritanos e uma cabeça vã de ideias e espírito crítico.
A freira repetia nas aulas que era pecado faltar à missa e professava as virtudes de conduta de um bom católico. Eu não ia à missa, não frequentava a catequese (a senhora sabia e, por vezes, olhava para mim com ar reprovador!), mas era a melhor aluna. Escrevia aquilo que sabia que me dava pontos. Sofria arrepios sempre que me obrigavam a debitar hipocrisias. No entanto o sentimento de raiva era suportável, pois as aulas não abordavam temas fracturantes e o meu objectivo era ter boa nota.
Quando era miúda achava uma absurdez ver a minha avó rezar à santa Bárbara sempre que havia uma tempestade ou a outro santo qualquer quando precisava de encontrar algo que havia perdido. Enquanto eu procurava, ela rezava. Assim que eu encontrava o objecto, dizia-me “Vês?!”, ao que eu respondia “Vejo avó. Estava ali. E não foram as tuas rezas que o encontraram, fui eu!”. Pobre velhota, tantas e tantas vezes me tentou incutir a oração quando eu me aninhava na sua cama. Eu, rebelde, recusava-me a obedecer. Depois fazíamos as pazes e ríamos em uníssono com as histórias dela sobre o Pomito Lencart (a pomada milagrosa!
), que me levavam ao delírio.





Tudo isto faz-me lembrar aquele argumento sobre o se poder provar ou não a existência de um deus com poderes sobrenaturais.
It goes like this: se esse deus intervêm de alguma maneira no nosso universo através de métodos fora das regras que identificamos como sendo da natureza (os chamados milagres), então esse deus tem um efeito que pode ser medido. Se por ser medido, pode passar pelo escrutínio científico.
Por outro lado, se esse deus não pode intervir no nosso universo (ou seja, criou-o e agora o universo é regido apenas pelas “leis naturais”), existir ou não esse deus torna-se um bocado… irrelevante para o nosso dia-a-dia.
(a não ser que se tenha em conta uma after-life e outros planos sobrenaturais)
O deus, a existir, terá/terão necessariamente poderes sobrenaturais (quanto mais não seja, pelo menos o de influenciar a psique). Ou não? E o que se discute aqui são mesmo essas questões. Provar ou não que existe. Acreditar ou não que existe.
Na minha opinião, it does not go like that. Se dizes que o deus pode ou não intervir, significa que partes do princípio que ele existe. Eu não acredito nisso. Logo, não ponho sequer a hipótese de ele ter ou não essa possibilidade. Também assumes que ele existe ao afirmares que foi ele que criou o universo, o que eu necessariamente contesto.
Seguindo o teu raciocínio, que implica a existência desse deus, se identificares um fenómeno ou processo que não consegues compreender, chamar-lhe-ás milagre e dirás que foi obra de uma entidade trascendente. Eu, como não crente, classificá-lo-ei apenas como fenómeno por compreender e esperarei que surja uma explicação que o consiga legitimar à luz da razão.
Quanto à medição do efeito de deus… É certo que a ciência admite a existência de algumas entidades cuja materialização ou medição ainda nos parece obscura, nomeadamente as relacionadas com a física quântica. Ainda assim, as partículas, os seus estados e comportamentos foram observados e medidos. Mas deus e a sua actividade não estão incluídos nesse conjunto de coisas. Outro problema na medição desse efeito é exactamente a falta de explicação do milagre. Só conseguimos medir o que conseguimos explicar, porque a medição implica a avaliação de um resultado obtido por um processo ou fenómeno conhecido, que segue determinadas leis previamente estipuladas.
Hum… diria que deves estar um bocado queimada de andar a discutir estes temas com crentes. Não entendeste bem o que quis dizer, pois isto não tem a ver com acreditar ou não. Era sobretudo um exercício teórico, à Demónio de Maxwell, sobre o caso do deus sobrenatural. O argumento começa como “Se um deus sobrenatural existe…”, e continua para ver que conclusões lógicas se podem tirar daí. No fundo são que, ou ele tem efeitos no nosso mundo e há a possibilidade de serem medidos,ou
não tem efeitos e existir ou não existir não faz muita diferença no universo actual.
A primeira conclusão está relacionada com outro argumento, normalmente usado por quem acredita, de que a ciência não pode provar se deus existe ou não existe. E este argumento existe porque não tem havido muito sucesso em relação a provar cientificamente que milagre X aconteceu (logo, não dá jeito que a ciência tenha qualquer autoridade sobre esse tema). Se algum deus sobrenatural não existe, a ciência pouco pode fazer para “provar isso”. Mas se existe, e influencia fisicamente o nosso mundo, isso pode ser medido. Portanto, a ciência pode ter alguma coisa a dizer sobre a existência de algum deus (e até agora, o que tem a dizer é que não há provas de que exista).
Mas alguém pode dizer “ele existe, mas não afecta o nosso mundo” – que é, por exemplo o caso do deus que cria o universo e vai-se embora. Neste caso, a conclusão é que fazer coisas por ele não vai alterar nada, uma vez que ele não vai influenciar nada no Universo. Pode-se dizer que mesmo que nenhum deus exista, pode influenciar uma pessoa que acredita nele. Mas neste caso, essa pessoa acreditar em deus, nos pais ou no seu animal de estimação pode muito bem dar os mesmos resultados, e o que importa não ser o deus em si, mas o acreditar.
Já agora, deixo aqui este link, tem a ver com o tema:
Caríssimos!!!
Estou absolutamente seguro, que o ateísmo é uma espécie de deísmo.
Afirmo isto porque, depois de aparecerem filósofos como Espinosa, que embora, não conhecessem deus, mas tendo estudado exaustivamente, o seu significado convencional, concluíram acertadamente, que deus e a Natureza são a mesmíssima realidade; que se manifesta impessoalmente, como vida mineral, vegetal e animal em geral e pessoalmente como o ser humano individual.
Em suma: Deus e a Humanidade são o mesmo ser, compreendido de forma diferente.
Portanto, como por implicação, os ateus são naturalistas, embora não apreciem a palavra deus, na realidade apreciam o mesmo ser que eu. A Natureza. Que em significação absoluta significa “Deus”.
Etc.