Movíamo-nos com cautela, pisando desajeitados os paralelos escorregadios. Aqui e ali padrões em vermelho, ocre e amarelo. São as folhas outonais que também emprestam o seu carácter à cidade. Apertávamos os corpos uns contra os outros na tentativa de enganar o frio e fintar as espessas gotas que caíam furiosamente. Algumas, mais ariscas ou clarividentes, encontram sempre o caminho certo para beijar a pele por entre uma gola ou um cachecol mal aconchegado. Não faz mal, depressa esmorecem no conforto do pescoço. Entrámos no bar mais próximo para aquecermos as entranhas.
Uma menina belga vestida de negro integral preparava a sua investida. A avaliar pelos olhares de soslaio diria que de uma viúva negra se tratava, não fosse o apêndice (vulgo namorado, acompanhante ou isso) a ela acoplado. “De onde são?”. Visto ser a única mulher do grupo, tomei a iniciativa: “Dois portugueses e três alemães.”. Pois o aracnídeo incorporou a informação, esboçou um esgar de desagrado (só faltou esticar as patinhas peludas em sinal de ameaça) e regressou ao bar. Eu nem sabia que os artrópodes bebiam álcool… Observássemos o interior da cabecinha desta criatura e veríamos um cérebro imerso nessa substância que inebria os sentidos.
Avançou novamente para nós, deu as boas-vindas e desejou-nos uma agradável estadia. Parecia agora um pequeno animal ferido. Retirou três moedas de cêntimo e estendeu-as a cada um dos alemães: “Não gosto de alemães, nunca falo com eles. Sei que vocês não têm culpa e queria ultrapassar isto. Gostava de vos oferecer estes cêntimos como moedas da sorte… A que muitos dos nossos antepassados não tiveram. Posso contar a história da minha avó?”.
Nesta Europa tão longínqua do nosso cantinho são revividas diariamente as dores da guerra. Há quatro anos atrás visitava a biblioteca, um dos símbolos desta cidade. A guia explicava ter sido queimada em 1914 pelos alemães, reerguida em 1928 com a ajuda dos Estados Unidos e novamente destruída pelos germânicos em 1940. Na altura os visitantes alemães baixaram as cabeças, mergulharam os olhos no chão e pediram desculpa. A dor não permanece apenas nas memórias das famílias e das nações. Está gravada na pedra das habitações reconstruídas, que têm inscrito o ano da destruição.
Nós, espécimes humanos, vivemos do preconceito. Acumulamos umas ideiazinhas sobre aquilo que gostaríamos de ser e o que queríamos que os outros fossem. Depois conhecemos pessoas e coleccionamos alguns rótulos para personalidades e comportamentos. Sabemos exactamente quais foram as atitudes que nos magoaram e fazemos questão de lhes atribuir os papelinhos mais coloridos, para nunca mais nos escaparem. Um dia somos confrontados com um desses execráveis pedaços de cor e, em pânico, libertamos a nossa raiva na proporção do que vive cá dentro. E só então nos apercebemos que afinal os seres não saíram do mesmo molde. Tarde demais.
(Vídeo: Invasão e ocupação germânicas da Ucrânia durante a II Guerra Mundial. Interpretação de Kseniya Simonova, artista ucraniana.)




E não é que fiquei arrepiada ao ler o teu post?
Eu também ficava, se tivesse que ler textos destes todos os dias. É por isso que cada vez que volto ao meu blog me concentro apenas na região inferior de cada post, aquela parte que contém os comentários.