Sabia de antemão que os belgas sofrem dessa doença raríssima que não lhes permite ter portadas ou persianas nas janelas. Sendo eu apreciadora do repouso imerso em total escuridão, vi-me forçada a adquirir uma venda para cobrir os meus cativantes olhos durante o sono. Mais tarde iniciaram obras no edifício do lado e os indivíduos teimam em começar a trabalhar bem antes do nascer do sol. Lembro-me que no início, e apesar de acordar sobressaltada, decidia-me sempre pelo benefício da dúvida: “lá estão os jovens, bêbados mas felizes, a rufar uns tambores ou jambés”. Depois a situação foi-se repetindo dia após dia. Batidas ensurdecedoras em metal, martelos pneumáticos às 6:20 da manhã… E a betoneira. A betoneira, minhas avestruzes pernaltas! Aquele rolar monocórdico que se me vai picando os nervos e me transforma num ser com pensamentos violentos, capaz de lhes atirar com uma bigorna do alto do meu terceiro andar. Nenhuma miúda, nem mesmo uma vil miúda como eu, é de ferro. Decidi, portanto, tomar uma atitude severa e … comprar também uns robustos e maleáveis tampões para os ouvidos. Eu! Eu, que sempre dormi que nem uma pedra, agora tenho que me equipar toda para conseguir descansar! Meias fofas para não se me enregelarem as extremidades, que eu sou menina para gostar de sentir os ossos no sítio quando me levanto. Venda nos olhos e tampões nos ouvidos. Que bonito. O que me vale é que combinam com a capa do edredão, caso contrário nem sei o que seria da minha triste figura.
Embora considere extremamente improvável que outra criatura para além de mim venha por obra do acaso dormir na minha cama, não deixo de imaginar situações inóspitas e até discussões sobre a utilidade dos acessórios sempre que eu permanecer impávida e serena (leia-se completamente surda) perante as tentativas de sedução mediante sussurros ao ouvido. Claro que pretender que alguém no seu perfeito juízo queira seduzir um bicho que dorme com uma venda sobre os olhos e dois apêndices espetados nos orifícios auditivos é, por si só, um exercício mental ridículo e autêntico desafio às leis da probabilidade.
Mas não nos dispersemos, porque não era bem isto que queria contar. Certa noite, tinha eu remetido o meu corpinho à posição horizontal quando me lembrei que não tinha ligado o despertador. Empreendi uma arriscada viagem até à mesa para buscar o bendito telemóvel. Arriscada? Em primeiro lugar porque o sono me debilitava todos os sentidos, incluindo o do equilíbrio. E em segundo e muitíssimo importante, pela decisão absolutamente brilhante de manter colocada a venda nos olhos. Não me perguntem. Sempre fui assim, gosto de desafios e pensei que pudesse ser divertido realizar todo o caminho sem ter a noção dos obstáculos. E lá fui, à deriva pelo meu casulo. Consegui atingir a mesa. Não foi difícil, apenas percorri dois metros de distância. Entretanto regressei com sucesso. Congratulava-me pelo fantástico sentido de orientação, que o meu ego também agradece umas festinhas esporádicas. Foi então que experimentei o movimento para me sentar no meu ninho. O meu rabo rasou o vazio e instalou as suas almofadas no solo com um estrondo descomunal. Claro que os braços não quiseram deixar de participar neste momento memorável e embateram com violência na tábua lateral do leito. Balanço final: nódoas negras no braço, uma ferida no cotovelo. Os glúteos estão bem e recomendam-se, comprovando-se uma vez mais a sua perfeita adaptação à função de airbag.




Não existe uma lei do ruído aí na Bélgica? Aqui não se pode começar obras antes das 8h ou lá o que é. E já tive que ir “abater” situações semelhantes de atentados ao descanso sagrado.
Tentei perguntar, mas apenas a estrangeiros que também não me souberam elucidar sobre o assunto. Obrigada pela visita. Entretanto passeei os olhos por algumas das tuas fotos e sou obrigada a dizer que gostei.
No conjunto foto+comentário sobressaiu-me, entre outras, a “Nothing to see here… just sucking brains.”.
Muito obrigado. Mas olha que ainda estou para perguntar a um/a entomologo/a se ele não estarão mas é a… sabes… pinar.
Já agora, gosto muito da tua escrita cáustica. É agradável quando as pessoas assumem que se é negro por dentro, sem máscaras para fora. :]
Pinar. Muito bem. Eu, miúda esforçada, a tentar manter a custo este blog de vernáculo rico, diversificado e erudito e é assim que me agradecem. Com o pinar. Salvo seja, atenção!
Tens que rever esse teu conceito de agradável…
Só se fui fumadora noutra vida, pois nesta tenho a certezinha que negrume por dentro é coisa que não aprecio.
Obrigada.
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
Vil, só tu para me fazeres rir às gargalhas. Como é que alguém como tu, que passa a vida a bater em todo o lado em pleno dia, faz uma coisa dessas??! Claro que não podia dar bom resultado!
Já agora, não podes tirar uma foto à tua indumentária nocturna?
Olha, que engraçadinhas que nós estamos. Eu nunca disse que tinha sido uma opção inteligente.
Só voud dando uns encontrõezinhos, joelhadas e cotoveladas aqui e ali. Lá por as ocorrências serem em número superior ao número de vezes que acontecem na existência das outras pessoas, extrapolar para um “passar a vida a” parece-me exagerado.
O que eu gosto mesmo mesmo é de tropeçar em pessoas interessantes. Mas infelizmente é um acontecimento que não se verifica amiúde.
Fotos… Tenho para mim que este blog já tem demasiadas fotografias da minha vil criatura.